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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

CICLO DOS TRABALHOS AGRÍCOLAS

INÍCIO DO NOVO ANO AGRÍCOLA

  Este post tem como objectivo recordar para aqueles que nasceram numa aldeia agrícola e dar a conhecer a todos os outros, como é o trabalho no campo e as suas várias fases ao longo do ano que tem como início as sementeiras:

AS SEMENTEIRAS                                         Setembro/Outubro

 

  É com as sementeiras que se dá início ao ano agrícola. Era neste período que os novos caseiros tomavam conta das terras que iam cultivar ao longo do ano ou dos próximos anos. Este trabalho consiste em lavrar os terrenos que estiveram cultivados de milho e batatas e semearem-lhe trigo. Concluído este trabalho entra-se numa época mais calma que coincide com o rigor do inverno

 

A ENGAÇA E A CÔA DO TRIGO                      Janeiro/Fevereiro

 

  A engaça do trigo é um trabalho não muito pesado, se é que existem trabalhos leves na agricultura. Esta etapa tem como objectivo mexer a terra com um engaço (ancinho), para arrancar algumas ervas que tenham nascido, juntamente com o trigo e as raízes do milho, que ficaram na altura que a terra foi lavrada.

  A engaça tem lugar quando o pico do inverno já passou, embora ainda  esteja muito frio e gelo, daí a expressão: "Hoje não vou engaçar porque o engaço não entra na terra com o códo" (gelo). Após o campo de trigo estar todo engaçado, segue-se a côa que está ligada à engaça, e consiste em "pentear" o terreno com o engaço, juntando as raízes do milho na parte lateral, e ao fundo, em terrenos com maior dimensão, fazendo linhas horizontais, para que estes fiquem o mais nivelados possível.

 

PREPARAÇÃO DOS TERRENOS PARA AS BESSADAS    Abril

 

 

 Com a chegada do Cuco(ave migratória que aparece nesta altura)chega também a época das bessadas: a mais bonita no meio agrícola, que tem o seu início com a preparação dos terrenos. Essa preparação consiste em limpar  as arribadas, depositar o estrume e mato (tojo  giestas e pinheiriço), cortadas no monte, que depois, juntamente com o estrume tirado da loja do gado, servem para estrumar a terra. Na impossibilidade de lavrar junto ao fundo, e nas partes laterais, há necessidade de fazer  os cabedulhos, que são faixas de terreno, cavados à enxada, nas partes laterais e no fundo, ficando com o aspecto que a imagem (com montagem) mostra: os cabedulhos feitos e os montes de estrume.

 

 

ALFAIAS USADAS NAS BESSADAS
 

     (PROMETO INCLUIR FOTOS ENQUANTO ISSO NÃO ACONTECE FICAMOS COM   OS DESENHOS)            

 

AS BESSADAS                                                             Abril/Maio

 

  Após a preparação dos terrenos estar concluída, chega  a bessada: as terras que estiveram de lameira, servindo de pastagem para o gado durante o Inverno, vão agora ser lavradas. As primeiras bessadas são as das batatas, passando logo para as do milho. Como grande parte dos trabalhos são feitos com a entreajuda de todas as pessoas da aldeia, normalmente em cada dia havia uma ou mais bessadas, mas do mesmo agricultor, para que todos o pudessem ajudar.

   Inicialmente os terrenos eram lavrados com arados de pau, e nos terrenos mais pesados era usado o segão (tipo arado só com uma sega que ia cortando a terra), tornando-se mais fácil ao arado lavrar, podendo este ser equipado com a sega, abdicando neste caso do segão. Mais tarde, já na década de 60, apareceu o arado de ferro ou charrua, muito mais prático e mais fácil de manobrar mesmo assim nos terrenos mais difíceis optou-se por duas juntas de vacas (clique aqui para ver foto da galeria da C.M. de RESENDE) O lavrador era quem estava sujeito a um maior esforço, daí a ter algumas honras em relação às outras pessoas: por exemplo, havia uma cabaça só para os lavradores, eram os primeiros a beber, sentavam-se ao cimo da toalha para almoçar, etc. O trabalho das outras pessoas é também importante; consiste em desfazer as seitas com a enxada, deixadas pelo arado, e quando a terra estiver quase lavrada as mulheres vão-se ocupar de semear o milho. O feijão, já na terra, lançado à mão e o milho, que é semeado grão a grão através de pequenos buracos feitos com sachos pequenos, preenchem assim todo o terreno.

   Chega então a parte final desta bessada, e se houver tempo enquanto as pessoas se deslocam para outra bessada, ficam duas pessoas a engradar: consiste em alisar o terreno e tapar algum grão de feijão ou milho que tenha ficado à superfície; este trabalho é feito com uma grade (armação em madeira com ramos de árvores presos, arrastando-se por todo o terreno), puxada pelas vacas. Feito isto, repete-se noutro campo, até todos os terrenos estarem lavrados. Acabam assim as bessadas.

 

SACHA E CAVA DO MILHO                                      Junho/Julho

 

       A sacha do milho consiste em mexer o terreno com uma enxada para retirar as ervas, que entretanto nasceram à volta do milho e dos feijões, para que estes se possam desenvolver mais rapidamente.

     A cava realiza-se passando, mais ou menos, um mês. É muito idêntica à sacha, mas já tem outro objectivo: retirar alguns pensseiros( pés de milho) que estejam muito juntos, aumentando assim o espaço para o milho se desenvolver melhor, aumentando a produção, (chamamos nós arrelentar o milho). Logo de seguida começa-se a preparar o terreno para a abatida (primeira rega) espalhando palha e fetos no terreno.

 

A REGAGEM                                                            Julho/Agosto

 

     Após os campos de milho e batatas estarem empalhados, que consiste em espalhar palha por todo o terreno, para que a água não leve a terra, dá-se início à regagem: começa com a abatida (primeira rega) e tem como objectivo abrir um rego vertical e vários horizontais (belgas), para a esquerda e para a direita, do cimo ao fundo do terreno; a este conjunto chama-se torna; se o terreno for muito largo, pode levar mais que uma torna, se não houver espaço leva um cabeçeiro (rego vertical e vários horizontais, todos para o mesmo lado). Ao mesmo tempo da rega, vai-se batendo o terreno com a enxada, para que a terra fique direita, e a palha se vá misturando com a terra. A partir daqui, faz-se de 8 em 8 dias, uma rega, a abrir ou atalhar  (ou a abrir o rego ou a desfazer, uma semana a abrir outra a atalhar) até que o milho ou as batatas estejam vingadas.

    Falta mencionar que, embora Fazamões tenha muita água, não deixa de de ser disputada: cada terreno tem os seus dias ou horas nas poças, e são religiosamente respeitados. O mesmo acontece com a àgua do rio, que tem dias marcados para regar, e dias para os moinhos, e mesmo havendo água com abundância, não deixava de haver uma ou outra discussão.

 

AS SEGADAS                                                          Julho/Agosto

 

 

     É um trabalho que se inicia na altura em que faz mais calor. Só por si, é razão para se considerar um trabalho com alguma dureza. O objectivo é segar o trigo com uma seitoira, espalhando-o em pabeias pelo terreno, para poder acabar de secar. Daí a alguns dias, junta-se cada pabeia, dando origem ao capão, (molho), amarrado com o próprio trigo. Após esta etapa estar concluída, juntam-se os capões formando vários montes, esperando pelas carretas.

 

AS CARRETAS                                                                  Agosto

 

 As carretas são o transporte do trigo dos terrenos para as eiras; são feitas de duas formas: às costas ou no carro de vacas. Quando os terrenos não têm caminho de carro só é possivel levar o trigo em molhos às costas. É um trabalho muito duro porque é feito por caminhos muito estreitos, e também porque é feito em pleno Verão, em que as temperaturas elevadas e o peso dos molhos são grandes adversários. Nos terrenos que têm caminho de carro, o transporte do trigo é feito no carro das vacas, através de várias carradas ou de várias séries de molhos. O trigo ia chegando às várias eiras que existem na aldeia, para depois ser emedado, em medas; umas bem feitas e direitas, outras tão tortas que era necessário pôr paus a segurar, para não cairem. Dependia do jeito de cada um. Acabada esta etapa, ficava-se a aguardar a chegada da malhadeira, para dar início às malhas (malhadas). 

 

AS MALHAS                                                                        Agosto

 

 

    As malhas (malhadas) são um trabalho feito em pleno Verão. Com as eiras cheias de medas de trigo, chega o momento desse trigo ser malhado, o que é feito através de uma máquina a que nós chamamos malhadeira. A malhadeira era escolhida de acordo com a percentagem exigida, uma vez que o trabalho da malhadeira era pago em trigo; portanto, vinha malhar a que levava menos trigo. Todos os anos, era uma eira diferente que começava a malhar. Eram os lavradores, que tinham o trigo nessa eira,  que tratavam de a contratar, existindo sempre alguma divisão acerca das malhadeiras, chegando a haver anos que chegaram a ser duas a malhar em eiras diferentes. Após a malhadeira estar contratada, chega o momento de a ir buscar a outra aldeia vizinha, e eram os lavradores da eira que iam malhar primeiro; tinham essa obrigação, variando sempre a pessoa que a ia buscar, e depois tranferir para outra eira, embora restrito a um pequeno número, porque o transporte exigia uma boa junta de vacas, e também muita perícia na condução das mesmas. Concluída esta etapa, a malhadeira é montada e começa a malhar, estando já o dono  do trigo preparado para o fazer, com os sacos e os bançilhos (giestas muito finas); começam então, a desmanchar a meda, metendo os capões na malhadeira, fazendo esta a separação do trigo para os sacos; a palha sai na frente para ser mexida, e depois amarrada em molhos, para ser levada para o palheiro e arrumada. E assim, continua-se outra malha, até que essa eira fique vazia, passando depois para outra eira, até que todo o trigo esteja malhado. Claro que esta descrição das carretas e das malhas já fazem parte do passado; actualmente já não há carretas, e as malhas são feitas no terreno, tal como as fotos mostram: sinais do tempo.

 

ARRANCA DAS BATATAS                                            Setembro 

     

 

  Este trabalho, assim como os próximos, é feito em pleno Samiel (S. MIGUEL); designação em calão, que é dada a esta época, que coincide com a colheita dos últimos produtos. 

  Após os rabuleiros (rama da batateira) ficarem secos, dá-se início à arranca, começando por cavar a terra, separando as raízes das batatas, formando carreiros ao longo do terreno. Logo de seguida, começa outra etapa, que é apanha e a escolha das batatas, separando em sacos diferentes as graúdas e as miúdas; também as cortadas com a enxada, contando para isso com a pontaria afinada de alguns trabalhadores, não para a terra, mas para as batatas. Após ensacadas, são transportadas para a loja, formando grandes montes; as batatas graúdas são  para semente, portanto para voltar a plantar; para consumo ao longo do ano e para vender são as miúdas e as cortadas são para alimentação do porco.

 

COLHEITA DO MILHO                                                    Outubro

 

     Após o milho ficar seco (sinal que está vingado), chega a hora de o apanhar, retirando as espigas das canas, para cestos, sendo levado para o carro das vacas, equipados com sebes (armação feita de varas), para não deixar cair as espigas, sendo transportado para as eiras a fim de se fazer a desfolhada; as canas que ficaram, são cortadas, para servirem de alimentação ao gado.  

 

A DESFOLHADA                                                             Outubro

 

 

     Com as desfolhadas, chega o fim do ano agrícola, e vai ser também, o último artigo escrito neste post.

     As desfolhadas são feitas ao fim do dia, e prolongam-se pela noite fora, aproveitando-se as grandes noites de luar; são realizadas nas eiras, com grupos de pessoas sentadas à volta dos montes de milho, separando o folhelho (cobertura que envolve a espiga), da espiga do milho, sendo o folhelho aproveitado para alimentação do gado, e as espigas vão para o canastro, para aí poderem secar para mais tarde serem malhadas. É um trabalho leve e fácil de executar, sendo do agrado de todos, pelo convívio e divertimento. Acabadas as defolhadas, depois de um curto período de descanço, começa o novo ano, com as sementeiras.

                                 

PARA TODOS OS QUE JÁ REALIZARAM E OS QUE AINDA REALIZAM ESTES TRABALHOS, AQUI FICA A NOSSA HOMENAGEM.

 

NOTA: É de notar, neste post, o uso de termos pouco usuais; no entanto, optei por usá-los, sendo fiel à tradição da linguagem usada no meio agricola.

     FIM

 

   

sinto-me:
publicado por JORGE C RAMOS às 16:15
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